sobre a ética e a interpretação do código

⊆ 10:16 by Carlos Couto | ˜ 0 comentários »

Confuso, ele disse:
- Esperem, vamos consultar o Código de Ética!


Quando o discernimento, os princípios morais e a noção íntima do que é certo e do que é errado precisam buscar respaldo em referências externas e jurisprudências fabricadas pelos doutos que ditam a ordem, a expressão da verdade e o senso de justiça já estão prejudicados.

Confiante, ele sorriu e disse:
- Esperem, vamos interpretar o código!


Tudo aquilo que precisa ser interpretado, não é em si mesmo claro e objetivo e, salvo ausência de intenção deliberada, pode ter sido exatamente concebido para servir aos interesses daquele que, em situação oportuna, possa vir a beneficiar-se com a subjetividade gerada pela dúvida.

 

o monótono poema da espera

⊆ 10:15 by Carlos Couto | ˜ 0 comentários »

se o poema é campo de espera
é em mim que plantas teus versos

Enquanto resplandecia um opaco sol de arremedo, era parida exausta uma melancólica manhã de outono, sem ânimo nem expectativa.
Também trazia em seu cordão umbilical uma réstia de luz mais fria que as sombras e seu corte fez-se com os dentes, que também eram frios. Faminta, era dada a alimentar-se do sumo das heras e do limo das encostas, ruminava pedras, folhas mortas e o pó dos caminhos abandonados e esquecidos.
Quase em desespero, abraçou o meu peito, um manto árido com cicatrizes de arado, e salpicou-lhe um copioso substrato de restos de amargura e sorrisos em estado de putrefação.
Chegada a estação das chuvas e dos prantos sufocados, germinou-se a tímida árvore do silêncio, com tronco de esqueleto frágil e braços sem vida, de onde pendiam frutos de um verde vazio e distante, com gosto de nada.

se o poema era um campo de espera
foi em ti que sepultei os meus sonhos

 

o real da abstração

⊆ 10:12 by Carlos Couto | ˜ 0 comentários »

a lua é uma abstração,
as plêiades, os elementos cósmicos,
os longes, tudo abstração...

o real, para mim,
é o tangível, o táctil,
o palpável ou, ao menos,
o que parece estar próximo

teus lábios são reais,
teus beijos, abstração...

 

enquanto o mundo paria

⊆ 10:10 by Carlos Couto | ˜ 0 comentários »

o passáro pariu o voo
enquanto a flor engendrava o perfume

o sol pariu a luz
enquanto o campo arquitetava o verde

o mar pariu as ondas
enquanto a noite construia estrelas

o fruto pariu o gosto
enquanto as nuvens fabricavam a chuva

o mundo pariu o mundo
enquanto o homem maquinava a destruição

 

liberdade de expressão

⊆ 10:09 by Carlos Couto | ˜ 0 comentários »


libertar a letra
para que a sua força flua
e nem o verso a retenha

libertar a palavra
para que seu sentido voe
e nem o poema a sufoque

libertar o verbo
para que seu espírito transcenda
e nem a mão do homem o escravize

libertar a liberdade
para que ela seja mais
muito mais do que uma palavra

 

cântico

⊆ 10:08 by Carlos Couto | ˜ 0 comentários »


venho de longe
arrasto um tempo remoto
e trago deuses prepotentes
que zombam dos deuses alheios

venho de perto
abrigo um tempo recente
e trago anjos cobertos de bondade
em comunhão com os anjos dos outros

chego aqui
habito esse agora
e o sagrado que há em mim
curva-se ante à luz do Deus verdadeiro