o monótono poema da espera

se o poema é campo de espera
é em mim que plantas teus versos

Enquanto resplandecia um opaco sol de arremedo, era parida exausta uma melancólica manhã de outono, sem ânimo nem expectativa.
Também trazia em seu cordão umbilical uma réstia de luz mais fria que as sombras e seu corte fez-se com os dentes, que também eram frios. Faminta, era dada a alimentar-se do sumo das heras e do limo das encostas, ruminava pedras, folhas mortas e o pó dos caminhos abandonados e esquecidos.
Quase em desespero, abraçou o meu peito, um manto árido com cicatrizes de arado, e salpicou-lhe um copioso substrato de restos de amargura e sorrisos em estado de putrefação.
Chegada a estação das chuvas e dos prantos sufocados, germinou-se a tímida árvore do silêncio, com tronco de esqueleto frágil e braços sem vida, de onde pendiam frutos de um verde vazio e distante, com gosto de nada.

se o poema era um campo de espera
foi em ti que sepultei os meus sonhos

 

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